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O Grande Irmão está de olho em você

Olá queridos leitores!

Hoje resolvi radicalizar; mudar totalmente de rumo para não cairmos no monótono. Até agora, tenho apresentado leituras leves e divertidas (dependendo da profundidade com que você leia, claro), porém resolvi que agora seguiremos um ritmo vertiginoso, pois ler de tudo é a melhor coisa. Mesmo. Por isso, o escolhido da semana foi… “1984”, a obra-prima de George Orwell.

Temos que entender que esse livro é extremamente denso e completamente diferente de qualquer coisa que possamos já ter lido. Logo, para aproveitarmos ao máximo a leitura desse clássico, considerado um dos 100 livros mais influentes de todos os tempos, devemos nos despir de todas as nossas noções de sociedade e civilização, abandonar nossos princípios e valores, para que mergulhemos, de fato, nesse mundo de Orwell, que não deixa de ser o nosso.

Autor: Eric Blair (pseudônimo: George Orwell)

País: Reino Unido

Fundo: Bom, 1984 é uma ficção política distópica (contrária à utopia; totalitarista), que redesenha nosso mundo sob três blocos autoritários. O bloco que é palco do enredo é a Oceania, que engloba as Américas e o Reino Unido. Completamente dominada pelo Partido, a população está submetida à manipulação do governo, através de inúmeras maneiras. Não há, nesse governo, qualquer escrúpulo, sendo a verdade flexível ao bel prazer do Partido, conforme lhe interessa. Todos os “cidadãos” são vigiados pelas chamadas teletelas, e cruelmente colocados no eixo quando se opõem ao regime autoritário do Partido, que, sob a figura distante e ameaçadora do Grande Irmão, tem por único objetivo o poder, em sua forma mais pura. O lema do Partido é:

Ignorância é Força; Linerdade é Escravidão; Guerra é Paz

Dessa forma, o povo é alienado e condicionado a crer e aceitar todas as normas que lhes são impostas. Qualquer deslize é passível de punição e todos os passos de todos os dias das vidas de todas as pessoas são vigiados pelo núcleo do governo, o Partido Interno. As crianças são criadas para servir à imagem icônica Grande Irmão e repudiar qualquer sentimento ou princípio, pois o único objetivo de tudo é a manutenção do poder, e não nas mãos deles próprios, mas do Partido, tão segmentado, que dificulta ou praticamente impede qualquer reação da oposição, uma vez que o sistema corrupto e tirano é estrategicamente organizado de forma a ser incorruptível. Não se sabe em quem confiar, ou quem detém de fato o poder, tudo é feito na surdina mudado constantemente, moldando a mente das pessoas até que se tornem apáticas.

Sinopse: Dentre essas pessoas, nessa atmosfera onde predomina o medo e a insegurança, surge Winston, nosso “herói”. Winston Smith é mais uma pessoa da grande massa dominada que, porém, começa a ter ideias em oposição ao regime vigente as quais podem comprometê-lo seriamente. Ao mesmo tempo, ele conhece Julia, uma mulher cujas ideias assemelham-se às dele. Os dois começam um romance às escondidas, em locais onde não há, a princípio, nenhuma teletela observando-os. Além disso, conhecemos o altivo O’Brien, em quem Winston deposita suas esperanças de uma revolução. Mas uma reviravolta nos fatos pode mudar isso tudo. Será Winston pego em flagrante? Será punido ou morto? A revolução acontece? Conseguem eles mudar o sistema? Essas são respostas que prendem o leitor até a última página, tentando decifrar o destino de nosso “herói”.

*Apenas uma nota sobre Winston: Nosso “herói” talvez seja um dos mais inusitados de toda a literatura. Primeiro porque ele é, definitivamente, um anti-herói. Com moral e ética dúbias e um certo gosto pela lascívia, Winston não pode ser considerado um ícone do heroísmo ou um exemplo daquilo que há de melhor na humanidade. No entanto, o traço mais marcante de Winston é o fato de ser simplesmente mais um na multidão. Literalmente. Winston não é o líder de uma revolução, nem ao menos é importante de fato. É muito interessante pensar que milhares ou mesmo milhões de outras pessoas poderiam estar fazendo o mesmo que Winston, tendo ideias e começando a questionar o mundo e o sistema, e que todas passarão pelo mesmo processo e chegarão ao mesmo fim. Ele não é uma exceção heroica que surge em meio a uma massa alienada e se opõem abertamente àquilo que repudia; é um mero coadjuvante, um simples “quem?” em sua própria história, porque, em um mundo massificado e não idiossincrático, não existe o ser enquanto pessoa, existe somente o ser enquanto conjunto. E Winston é exatamente isso: uma generalização, a começar por seu sobrenome “Smith” (o equivalente ao nosso “Silva”). Bizarramente, porém, é por ser uma representação de todos que Winston é especial e extremamente humano e crível – impressionante o quanto amo paradoxos 😉

Minha opinião: Sinceramente, adorei o livro e ele me fez refletir sobre assuntos em que nunca antes havia pensado. Ao lê-lo, tive muito medo de eu mesma estar sendo de alguma forma manipulada; será que tudo não se passa de uma ilusão? Contudo, o livro apresenta um estilo narrativo gostoso de ler e um enredo que literalmente nos faz perder o fôlego. Lembro-me de ter passado o Carnaval inteiro com o livro na mão, o coração acelerado e apertado, com medo do próximo passo de Winston, com medo de ele ser descoberto… E é isso que me prende num livro: o mistério. Pois, notem, eu sei o final de quase todos os livros que leio, mas me importa muito mais a maneira como chegamos àquele desfecho uma vez iniciado o enredo que o desfecho em si. Em suma, a todos aqueles que não tiverem medo de serem apresentados a um regime opressor, a todos aqueles que quiserem repensar e refletir sobre suas ideias políticas, a todos os que quiserem uma leitura fictícia, porém totalmente verossímil nesses nossos tempos modernos e a todos os que desejam apenas mudar um pouco da mesma rotina literária, eu convido a ler este livro maravilhoso. Todavia, estejam avisados: não é para os fracos. (Isso porque não sou facilmente “assustável”, mas assustei-me com a perspectiva de uma sociedade daquela forma).

Curiosidade: Este livro foi o que inspirou a criação do reality show “Big Brother”, mas, de verdade, a não ser pelo nome e pelo fato de que todos estão sendo vigiados, não há nada de similar entre ambos. Desculpem-me em revelar essa opinião se magoar alguém, mas no reality show a promiscuidade transborda pela “Casa”, fazendo, na minha opinião, com que George Orwell se revire todo em seu túmulo.

O Grande Irmão está de Olho em Você

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